Compartilhar arquivos na rede de casa com SMB e Samba
A pasta compartilhada é o momento em que o servidor deixa de ser uma caixa ligada no canto e vira algo útil: as fotos aparecem no notebook, os documentos no celular e os filmes na TV, tudo saindo do mesmo lugar. Este guia mostra como criar essa pasta com o Samba no Ubuntu Server ou no OpenMediaVault, como acessá-la de cada aparelho e como dar a cada pessoa da casa só o acesso que ela precisa.
- Para quem é
- Quem já tem um servidor Linux ou OpenMediaVault instalado, com endereço fixo, e quer a primeira pasta acessível pela rede.
- Pré-requisitos
- IP fixo, DHCP e reserva de endereço para o servidor e Como organizar arquivos, pastas e nomes antes de centralizar
- Você vai sair sabendo
- O que é SMB e o que é Samba, como criar um compartilhamento com usuário e senha, como conectar de Windows, macOS, Linux, Android e TV, como funcionam as permissões e por que a porta 445 jamais deve ver a internet.
SMB e Samba: o protocolo e o programa
SMB (Server Message Block) é o protocolo de compartilhamento de arquivos nativo do Windows: é ele que está por trás das pastas de rede, dos caminhos que começam com duas barras invertidas e do “Mapear unidade de rede”. Com o tempo, macOS, Linux, Android e as TVs passaram a falar SMB também, o que o tornou a língua comum da rede doméstica. Você verá a sigla CIFS em telas antigas; é um nome legado da mesma família.
Samba é o programa de código aberto que faz um servidor Linux falar SMB. Quando você instala o Samba no Ubuntu Server, ou liga o serviço SMB/CIFS no OpenMediaVault (que usa o Samba por baixo), o servidor passa a aparecer para o Windows como se fosse outro Windows. Em NAS prontos, o fabricante já traz o equivalente ativado; os conceitos deste guia valem igual.
Há outros protocolos, como NFS (entre máquinas Linux) e WebDAV (via HTTP), mas para uma casa com aparelhos variados o SMB é o ponto de partida: é o único que todos entendem sem instalar nada.
Como funciona: um servidor, muitos clientes
O servidor expõe uma ou mais pastas, cada uma com um nome de compartilhamento. Cada cliente se conecta ao servidor, apresenta usuário e senha, e enxerga as pastas às quais aquele usuário tem direito. A partir daí, abrir, salvar e copiar funcionam como numa pasta local, com a rede no meio.
Antes de começar
Três coisas precisam estar prontas, e cada uma tem um guia próprio neste site:
- Endereço fixo. O cliente vai guardar o endereço do servidor; se ele mudar, a pasta some. Veja IP fixo, DHCP e reserva de endereço.
- Estrutura de pastas decidida. É muito mais fácil compartilhar uma pasta bem organizada do que reorganizar depois com a casa inteira dependendo dela. O método está em Como organizar arquivos, pastas e nomes.
- Disco de dados montado. Se o servidor tem um disco separado para arquivos, ele precisa estar formatado e montado em um caminho conhecido (por exemplo,
/srv/dadosou, no OpenMediaVault, em/srv/dev-disk-by-uuid-...). O guia de sistemas de arquivos cobre a formatação.
O passo seguinte a criar a pasta é mover tudo para dentro dela, e é nesse momento que as perdas acontecem: uma cópia interrompida pela rede, um “mover” que apaga a origem antes de o destino estar íntegro, um erro de permissão no meio do caminho. Regra: copie, nunca mova; confira o tamanho e a quantidade de arquivos no destino; só então apague a origem, e só se existir outra cópia em algum lugar, como manda a regra 3-2-1.
Criar o compartilhamento no Ubuntu Server
O roteiro abaixo cria um compartilhamento chamado familia, com leitura e escrita para os usuários do grupo familia. Você vai precisar de acesso ao terminal do servidor, local ou por SSH. Troque os nomes de usuário pelos da sua casa.
- Instale o Samba.
TerminalO primeiro comando atualiza a lista de pacotes; o segundo instala o servidor Samba e suas ferramentas.
sudo apt update sudo apt install samba - Crie o grupo e os usuários. O Samba usa os usuários do Linux como base, mas guarda as senhas de rede em separado. Por isso são dois passos por pessoa: criar o usuário no sistema e depois cadastrá-lo no Samba.
TerminalO
sudo groupadd familia sudo adduser --no-create-home --ingroup familia maria sudo smbpasswd -a mariaaddusercria o usuáriomariano grupofamilia(sem pasta pessoal, porque ela não vai fazer login no servidor); osmbpasswd -acadastra a mesma pessoa no Samba e pede a senha que ela usará nos aparelhos. Repita para cada pessoa. - Crie a pasta e ajuste dono e permissões. O exemplo usa
/srv/familia; se os dados ficam em outro disco, use o caminho onde ele está montado.TerminalOsudo mkdir -p /srv/familia sudo chgrp familia /srv/familia sudo chmod 2770 /srv/familiachgrpentrega a pasta ao grupo; ochmod 2770dá leitura, escrita e acesso ao dono e ao grupo, nada a outros, e o “2” inicial faz com que arquivos novos herdem o grupo da pasta. - Declare o compartilhamento no arquivo de configuração. Abra
/etc/samba/smb.confcomsudo nano /etc/samba/smb.confe acrescente, no final, o bloco:Arquivo /etc/samba/smb.confLinha a linha:[familia] path = /srv/familia browseable = yes read only = no valid users = @familia force group = familia create mask = 0660 directory mask = 2770[familia]é o nome que os clientes verão;pathé a pasta no disco;browseablefaz o compartilhamento aparecer na lista;read only = nopermite escrita;valid users = @familiaadmite só membros do grupo;force groupe as duas máscaras garantem que tudo que for criado pertença ao grupo e seja editável por ele, evitando a situação em que um arquivo salvo pela Maria não pode ser alterado pelo João. - Teste a configuração e reinicie o serviço.
TerminalO
testparm sudo systemctl restart smbdtestparmlê o arquivo e aponta erros de sintaxe antes de o serviço tentar usá-lo; orestartaplica a nova configuração. - Libere a porta no firewall, se ele estiver ativo. No Ubuntu, o firewall padrão é o
ufw; se você o ativou, libere o perfil do Samba apenas para a rede local:TerminalTroquesudo ufw allow from 192.168.0.0/24 to any app Samba192.168.0.0/24pela faixa da sua rede. Restringir à rede local é uma camada extra de proteção que custa nada.
Criar o compartilhamento no OpenMediaVault
No OpenMediaVault 7, tudo é feito pela interface web, e a ordem importa, porque cada etapa depende da anterior. Lembre que o OpenMediaVault só aplica as mudanças quando você clica em confirmar na faixa amarela que aparece no topo.
- Crie os usuários. Em Usuários › Usuários, clique em criar, informe nome e senha. Em Usuários › Grupos, crie o grupo
familiae adicione as pessoas. Usuários criados aqui já ficam prontos para o Samba. - Crie a pasta compartilhada. Em Armazenamento › Pastas compartilhadas, clique em criar, dê o nome
familia, escolha o sistema de arquivos (o disco de dados) e um caminho relativo. Em permissões, a opção “Administrador: leitura/escrita, Usuários: leitura/escrita, Outros: sem acesso” é um bom começo. - Defina os privilégios. Ainda na pasta compartilhada, use o botão de privilégios para marcar leitura/escrita para o grupo
familia(ou para cada usuário). É aqui que se decide quem acessa o quê. - Ative o serviço SMB/CIFS. Em Serviços › SMB/CIFS › Configurações, marque “Ativado”. O nome do grupo de trabalho pode ficar como está (
WORKGROUPé o padrão do Windows). - Publique a pasta. Em Serviços › SMB/CIFS › Compartilhamentos, clique em criar, escolha a pasta
familia, deixe “Público” como “Não” (exige usuário e senha) e salve. Aplique as mudanças na faixa amarela.
A instalação completa do sistema, incluindo a preparação do disco de dados, está em Instalar o OpenMediaVault em um PC reaproveitado.
Acessar a pasta de cada aparelho
Nos exemplos, o servidor está em 192.168.0.50. Se você já configurou um nome para ele, como descrito em DNS local e nomes de dispositivos, pode usar o nome no lugar do número; por enquanto, o número é o caminho garantido.
| Cliente | Como chegar | Observações |
|---|---|---|
| Windows 10/11 | No Explorador de Arquivos, digite na barra de endereços \\192.168.0.50\familia e pressione Enter. Para deixar fixo, clique com o botão direito em “Este Computador” › “Mapear unidade de rede”. | Marque “Conectar usando credenciais diferentes” se o usuário do Windows for outro. As credenciais ficam salvas no Gerenciador de Credenciais. |
| macOS | No Finder, menu Ir › Conectar ao Servidor (ou Cmd+K), digite smb://192.168.0.50/familia. | Clique no “+” para salvar como favorito. Para montar no login, adicione o volume aos Itens de Início nas preferências de usuário. |
| Linux (GNOME, KDE) | No gerenciador de arquivos, Ctrl+L e digite smb://192.168.0.50/familia; ou use “Outros locais › Conectar ao servidor”. | Para montar de forma permanente via /etc/fstab, instale o pacote cifs-utils. |
| Android | Use um aplicativo gerenciador de arquivos com suporte a SMB (vários gratuitos na loja de aplicativos; procure por “SMB” ou “rede” na descrição). Adicione uma conexão “SMB/rede local” com o IP, usuário e senha. | Alguns apps de fotos e de vídeo também abrem SMB diretamente. Em iPhone e iPad, o app Arquivos conecta por “Conectar ao servidor” com smb://. |
| TV e aparelhos de mídia | Apps de mídia (por exemplo Kodi ou VLC, e os clientes do Jellyfin/Plex quando o servidor roda esses serviços) listam compartilhamentos SMB como fonte de vídeo. | O app nativo de muitas TVs só fala DLNA, não SMB. Um servidor de mídia como o Jellyfin resolve isso melhor do que o compartilhamento direto. |
Ao conectar, você será perguntado pelo usuário e pela senha cadastrados no smbpasswd ou no OpenMediaVault. Se o Windows insistir em usar seu usuário local e falhar, prefixe o nome com o do servidor ou com uma barra invertida (por exemplo, \maria), o que força a autenticação local no servidor.
Permissões por usuário e grupo
O erro mais comum de iniciantes é criar um único usuário para a casa toda. Funciona até o dia em que alguém apaga uma pasta sem querer e ninguém sabe quem foi, ou até você querer que as crianças vejam os filmes sem poder apagar as fotos. O modelo que funciona:
- Um usuário por pessoa, com senha própria.
- Grupos por tipo de acesso:
familiapara quem edita os documentos comuns, por exemplo, e nenhum grupo especial para a mídia. - Um compartilhamento por finalidade, cada um com seu nível:
familiacom leitura e escrita para o grupo;midiacomread only = yespara todos os usuários válidos; uma pasta por pessoa com acesso exclusivo, se fizer sentido.
No Samba, duas camadas precisam concordar: a do compartilhamento (valid users, read only) e a do sistema de arquivos (dono, grupo e modos da pasta). Quando algo “não deixa salvar” apesar de a configuração parecer certa, a causa está quase sempre na segunda; o force group e as máscaras do exemplo mantêm as duas alinhadas. No OpenMediaVault, a aba de privilégios cuida das duas de uma vez.
Filmes, músicas e fotos antigas raramente precisam ser editados pela rede. Publicá-los com read only = yes impede que um clique errado na TV ou um celular de visita apague a coleção. Quem precisa adicionar conteúdo usa um usuário com acesso de escrita em outro compartilhamento apontando para a mesma pasta, ou copia por SSH.
Segurança: SMB1 desligado e porta 445 fechada para o mundo
SMB tem três gerações. A primeira, SMB1, é dos anos 1990 e tem falhas conhecidas usadas por ransomware em escala mundial. Windows 10 e 11 vêm com SMB1 desativado, e o Samba das versões atuais recusa SMB1 por padrão, aceitando a partir do SMB2. Não reative o SMB1 para “fazer funcionar” um aparelho velho; se uma TV ou impressora antiga só fala SMB1, é melhor servir aquele conteúdo por outro caminho (DLNA, um servidor de mídia) do que rebaixar a segurança da rede inteira. Para deixar explícito no Ubuntu, acrescente na seção [global] do smb.conf:
[global]
server min protocol = SMB2O SMB escuta na porta TCP 445. Serviços SMB alcançáveis pela internet são varridos por robôs o dia inteiro, e um usuário com senha fraca, ou uma falha ainda não corrigida, significa alguém lendo, apagando ou criptografando os arquivos da sua família. Não crie regra de encaminhamento de porta para 445 no roteador, não coloque o servidor em DMZ, e não use “UPnP” para que programas abram portas sozinhos. Para acessar a pasta de fora de casa, o caminho correto é uma VPN, explicada em Acesso remoto seguro: por dentro do túnel, o SMB funciona como se você estivesse em casa, sem nada exposto.
Completam a lista: senhas diferentes e razoavelmente longas para cada pessoa, e atualizações regulares do servidor, tema da rotina de manutenção, porque o Samba recebe correções de segurança com frequência.
Erros comuns
Glossário deste guia
- SMB
- Protocolo de compartilhamento de arquivos nativo do Windows, hoje entendido por macOS, Linux, Android e aparelhos de mídia. CIFS é um nome antigo da mesma família.
- Samba
- Programa de código aberto que faz um servidor Linux oferecer pastas pelo protocolo SMB.
- Compartilhamento
- Uma pasta do servidor publicada na rede com um nome próprio, como
[familia], e regras de quem pode acessá-la. - smb.conf
- Arquivo de configuração do Samba, em
/etc/samba/, onde cada compartilhamento é um bloco entre colchetes. - Porta 445
- A porta TCP em que o SMB escuta. Deve ficar acessível apenas na rede local.
- SMB1
- A primeira geração do protocolo, insegura e desativada por padrão nos sistemas atuais. Não deve ser reativada.
- Mapear unidade de rede
- Recurso do Windows que dá uma letra (como Z:) a uma pasta compartilhada, para ela aparecer como se fosse um disco local.
Checklist: a pasta está no ar?
Marque o que já fez. O progresso fica salvo apenas neste navegador.
Fontes e leituras complementares
- Samba Team, documentação oficial do Samba: referência completa do
smb.confe das ferramentassmbpasswdetestparm. - Ubuntu, Ubuntu Server documentation: capítulo sobre Samba como servidor de arquivos.
- OpenMediaVault, documentação oficial: usuários, pastas compartilhadas e serviço SMB/CIFS.
- Microsoft, Suporte da Microsoft: orientações sobre o SMB1 desativado no Windows 10 e 11 e sobre mapeamento de unidades de rede.
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