Por que RAID não é backup, e sincronização também não
“Tenho RAID, estou protegido.” “Está tudo no Google Drive, está salvo.” As duas frases são ditas com convicção por pessoas que perderam tudo em seguida. RAID e sincronização resolvem problemas reais, só que não o problema de perder dados. Este guia mostra, cenário por cenário, o que cada um cobre e o que só um backup de verdade cobre.
- Para quem é
- Quem tem um NAS com dois discos espelhados, ou mantém tudo em uma pasta sincronizada com a nuvem, e acredita que isso dispensa backup.
- Pré-requisitos
- A regra 3-2-1 de backup explicada.
- Você vai sair sabendo
- O que o RAID protege e o que ele replica fielmente, por que a sincronização propaga exclusões e corrupções, quais cenários cada um não cobre, e as três propriedades que um backup precisa ter para proteger de verdade.
O que o RAID faz, e só isso
RAID é uma forma de juntar dois ou mais discos para que eles se comportem como um só. Na configuração mais comum em casa, o RAID 1 ou espelhamento, tudo o que é gravado em um disco é gravado ao mesmo tempo no outro. Se um disco morre, o outro continua, e o sistema nem para. Outras configurações (RAID 5, RAID 6, RAIDZ do ZFS) espalham os dados e uma informação de paridade por três ou mais discos, com o mesmo objetivo: tolerar a falha de um ou dois discos sem interrupção. Os níveis e os cálculos estão em RAID explicado sem mistério.
A palavra importante é disponibilidade. RAID existe para que um serviço continue no ar quando um disco falha, sem que ninguém precise restaurar nada. Foi inventado para servidores que não podem parar, e é ótimo nisso. O que ele não faz é guardar o passado: o RAID não sabe o que o arquivo era ontem, só o que ele é agora. E “agora” inclui todo erro que você ou um programa cometeu.
Pense no RAID 1 como uma fotocopiadora instantânea presa à sua mesa. Tudo o que você escreve na folha original aparece na cópia no mesmo segundo. Se você rasga a folha, a copiadora rasga a cópia. Se derrama café, a cópia fica manchada igual. Ela protege contra uma coisa só: a folha original sumir sozinha.
Os cenários que o RAID não cobre
A lista abaixo não é teórica. Cada item é uma forma frequente de perder dados em casa, e em todos eles um RAID funciona perfeitamente e replica o estrago com precisão.
- Exclusão acidental. Você apaga a pasta errada, esvazia a lixeira, ou um comando mal digitado limpa um diretório. O RAID grava a exclusão nos dois discos no mesmo instante. Não há de onde recuperar.
- Ransomware. Um programa malicioso criptografa os arquivos acessíveis pela rede e pede resgate. Para o RAID, arquivos criptografados são apenas gravações novas, feitas com todo o cuidado nos dois discos.
- Corrupção silenciosa. Um arquivo é gravado com erro por um defeito de memória, de cabo ou de software. O RAID espelha o arquivo defeituoso. Sistemas de arquivos como ZFS e Btrfs detectam esse tipo de corrupção no disco, mas não um arquivo que já chegou errado do programa.
- Falha da controladora. O chip ou a placa que coordena o RAID quebra, ou um bug na reconstrução estraga a matriz. Os discos podem estar fisicamente perfeitos e os dados inacessíveis, porque só aquela controladora sabia como eles estavam organizados.
- Raio e pico de energia. A descarga chega pela rede elétrica ou pelo cabo de internet e queima a fonte, a placa-mãe e os discos. Os dois discos do espelho estão no mesmo gabinete, na mesma tomada.
- Roubo, incêndio e enchente. O equipamento inteiro vai embora. Todos os discos juntos.
- Erro humano na manutenção. Trocar o disco errado durante uma reconstrução, formatar a matriz achando que era outro volume, reinstalar o sistema no disco de dados. São erros comuns justamente quando o RAID está degradado e a pressão é alta.
- Segunda falha durante a reconstrução. Quando um disco é trocado, o RAID lê o disco restante inteiro para reconstruir o novo. É o momento de maior esforço sobre um disco que, muitas vezes, tem a mesma idade e o mesmo desgaste do que acabou de falhar.
Criar, expandir ou reconstruir uma matriz RAID envolve formatação e horas de leitura intensa. Faça backup completo e testado antes de qualquer alteração, e nunca troque um disco sem confirmar duas vezes qual deles o sistema marcou como falho.
Sincronização: o mesmo problema com outra roupa
Google Drive, OneDrive, iCloud Drive, Dropbox e programas como o Syncthing fazem com pastas, pela internet, o que o RAID faz com discos, dentro do gabinete: mantêm cópias iguais em vários lugares. A conveniência é enorme: o documento editado no trabalho aparece em casa, a foto do celular aparece no notebook. Mas igual é igual. Apagou em um lugar, apagou em todos. Um ransomware que criptografa a pasta sincronizada no PC envia as versões criptografadas para a nuvem, que as distribui para os outros aparelhos em minutos.
Os serviços de nuvem sabem disso e oferecem duas proteções parciais: a lixeira, que guarda arquivos apagados por um prazo, e o histórico de versões, que guarda versões anteriores de arquivos alterados por um prazo. Esses prazos variam por serviço e por plano, costumam ficar entre algumas semanas e alguns meses, e têm limites: pastas inteiras apagadas, contas suspensas, cotas estouradas e esvaziamento da lixeira por engano passam por eles. O guia Backup local, nuvem ou os dois? separa nuvem de sincronização de nuvem de backup.
Há ainda os cenários que nem a lixeira cobre: a conta é invadida e o invasor apaga tudo e esvazia a lixeira; o serviço encerra a conta por violação de termos ou por inatividade; o aplicativo de sincronização tem um bug e substitui a versão nova pela velha em todos os aparelhos; ou, simplesmente, você percebe a exclusão só depois que o prazo venceu.
Como o erro se propaga
O diagrama resume a diferença de comportamento. Um mesmo erro, apagar uma pasta por engano, atravessa o RAID e a sincronização em segundos e para na porta do backup versionado, porque o backup tem o retrato de ontem e ninguém pediu a ele para mudá-lo.
Cenário por cenário: RAID, sincronização e backup
| Cenário | RAID | Sincronização na nuvem | Backup 3-2-1 versionado |
|---|---|---|---|
| Um disco falha | Cobre: o serviço continua | Cobre: a cópia na nuvem continua | Cobre: restaura-se de uma cópia |
| Exclusão acidental | Não cobre: replica a exclusão | Parcial: lixeira com prazo e limites | Cobre: retrato anterior |
| Ransomware | Não cobre: replica os arquivos criptografados | Parcial: histórico de versões com prazo; pode ser esvaziado pelo invasor | Cobre, se uma cópia estiver offline ou imutável |
| Arquivo corrompido por software | Não cobre: espelha a corrupção | Não cobre: sincroniza a corrupção | Cobre: versões antigas |
| Falha da controladora ou da matriz | Não cobre: é a própria falha | Cobre: a nuvem não depende do hardware | Cobre |
| Raio, pico de energia | Não cobre: todos os discos no mesmo gabinete | Cobre: os dados estão fora | Cobre: cópia fora de casa |
| Roubo, incêndio, enchente | Não cobre | Cobre | Cobre: cópia fora de casa |
| Erro humano na manutenção (formatar, trocar disco errado) | Não cobre | Cobre, se a pasta sincronizada não for afetada | Cobre |
| Conta invadida ou encerrada pelo serviço | Não se aplica | Não cobre: os dados estão na conta | Cobre: cópias independentes do serviço |
| Percepção tardia (erro notado meses depois) | Não cobre | Não cobre: prazos vencidos | Cobre, conforme a política de retenção |
Leia a tabela por colunas. A coluna do RAID tem um único “cobre” inteiro: o disco que falha. A da sincronização cobre o que acontece com o hardware da casa e cobre parcialmente o que acontece com os arquivos. A do backup cobre tudo, mas com condições: “se uma cópia estiver offline”, “conforme a retenção”. Essas condições são o assunto da próxima seção.
O que de fato protege
Um backup só cobre a coluna inteira da tabela quando tem três propriedades. Sem qualquer uma delas, ele regride para alguma das outras colunas.
Cópias independentes
Independente significa que um evento que atinge uma cópia não atinge a outra. Discos no mesmo gabinete não são independentes (compartilham fonte, controladora e endereço). Pasta sincronizada não é independente do original (compartilha cada clique). Cópias independentes ficam em equipamentos diferentes, de preferência em lugares diferentes, e são escritas por um processo que não espelha, e sim grava retratos. É a regra 3-2-1 aplicada.
Versionamento
Versionamento é a capacidade de voltar no tempo. Um backup versionado guarda o estado dos arquivos de ontem, da semana passada, do mês passado, conforme uma política de retenção. É o que cobre exclusão, corrupção e ransomware: a versão boa existe em algum retrato anterior. A retenção precisa ser longa o bastante para cobrir o tempo que você leva para perceber o problema; para fotos de família, meses ou anos. As ferramentas que fazem isso estão em Ferramentas de backup.
Uma cópia offline ou imutável
Ransomware moderno procura e destrói backups acessíveis pela rede antes de criptografar o resto, justamente para forçar o pagamento. Um disco que fica desligado na gaveta ou um armazenamento na nuvem configurado para não permitir exclusão por um período (imutabilidade) são as únicas cópias que um invasor com controle da sua rede não alcança. É o “1” extra da regra 3-2-1-1-0.
E, somando-se às três propriedades, o teste: um backup que nunca foi restaurado pode ter qualquer uma delas no papel e nenhuma na prática. O guia Testar e restaurar backups fecha o ciclo.
Então para que servem RAID e sincronização
Nada disto significa que RAID e sincronização sejam inúteis. Significa que resolvem outros problemas, e vale usá-los para esses problemas.
RAID serve para que o servidor da casa não pare quando um disco morre. Se você tem um NAS que serve arquivos para a família e a mídia para a TV, o RAID 1 evita que uma falha de disco vire um fim de semana sem serviço e uma restauração apressada. Ele compra tempo para trocar o disco com calma. Também serve, nas versões com paridade, para juntar vários discos em um volume grande. O que ele não compra é segurança dos dados, e o guia O que é um NAS e quando ele faz sentido coloca isso na decisão de compra.
Sincronização serve para ter os mesmos arquivos em vários aparelhos e para levar os dados até o lugar onde o backup acontece. Um uso excelente do Syncthing ou do aplicativo do fabricante do celular é trazer as fotos automaticamente para o servidor; o backup versionado do servidor, feito por outra ferramenta, protege essa pasta. Sincronização é transporte; backup é destino.
A combinação sensata em uma casa é: RAID para o servidor não parar (opcional), sincronização para os arquivos chegarem a ele (conveniente), e backup 3-2-1 versionado com uma cópia offline para nada se perder (obrigatório). Quem precisa escolher um só entre os três escolhe o backup.
ZFS e Btrfs criam retratos locais quase instantâneos do volume, o que protege contra exclusão acidental e ransomware que não tenha acesso administrativo ao servidor. É uma camada valiosa, descrita em Sistemas de arquivos. Mas os snapshots vivem no mesmo disco, no mesmo gabinete, no mesmo endereço: continuam precisando de uma cópia independente e de uma fora de casa.
Erros comuns de quem está começando
Glossário deste guia
- RAID
- Conjunto de discos que funciona como um só, tolerando a falha de um ou mais deles sem interrupção. Protege a disponibilidade, não o passado dos dados.
- Espelhamento (RAID 1)
- Tudo o que é gravado em um disco é gravado ao mesmo tempo no outro, inclusive exclusões e corrupções.
- Disponibilidade
- Capacidade de um serviço continuar funcionando apesar de uma falha. É o que o RAID oferece.
- Sincronização
- Manter pastas iguais em vários aparelhos ou na nuvem. Propaga alterações e exclusões em segundos.
- Lixeira e histórico de versões
- Proteções parciais dos serviços de sincronização, que guardam o que foi apagado ou alterado por um prazo limitado.
- Imutabilidade
- Configuração de armazenamento que impede alterar ou apagar dados por um período, mesmo com a senha da conta.
- Reconstrução (rebuild)
- Processo de copiar os dados para um disco novo depois de uma falha no RAID. Momento de maior risco para o disco restante.
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Fontes e leituras complementares
- Backblaze, Hard Drive Test Data: estatísticas públicas de falha de discos, que mostram por que discos do mesmo lote e idade tendem a falhar perto um do outro.
- Restic, documentação oficial: exemplo de backup versionado com retenção configurável, o mecanismo que o RAID e a sincronização não oferecem.
- Microsoft, Suporte da Microsoft: artigos sobre a lixeira e o histórico de versões do OneDrive e seus prazos.
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