Saúde dos discos: SMART, sinais de falha e quando trocar
Todo disco morre; a diferença entre um susto e uma tragédia é saber com antecedência. Os discos registram a própria saúde em um sistema chamado SMART, que a maioria das pessoas nunca abre. Este guia mostra como ler esses dados no Windows e no Linux, quais números realmente importam, como rodar testes sem piorar a situação e como deixar o servidor avisando sozinho.
- Para quem é
- Quem tem discos em um servidor, NAS ou computador reaproveitado e quer descobrir problemas antes que eles custem arquivos.
- Pré-requisitos
- HD ou SSD: diferenças, durabilidade e uso em servidores
- Você vai sair sabendo
- O que o SMART é e o que ele não garante, como ler os atributos com CrystalDiskInfo e smartctl, quais atributos indicam falha iminente em HD e em SSD NVMe, como rodar testes curtos e longos e como configurar o smartd para monitorar e avisar.
O que é o SMART e o que ele não promete
SMART (Self-Monitoring, Analysis and Reporting Technology, tecnologia de automonitoramento, análise e relatório) é um conjunto de contadores que o próprio disco mantém sobre si mesmo: quantas horas está ligado, quantas vezes foi ligado, qual a temperatura, quantos setores com defeito ele já precisou substituir por setores reserva, quantos erros encontrou ao ler. É como o painel de um carro: não conserta nada, mas mostra a luz do óleo antes que o motor funda.
Vale ser honesto sobre o limite. O SMART detecta bem a degradação progressiva: setores que vão falhando, erros que se acumulam. Ele não prevê falhas súbitas, como uma placa controladora que queima ou um motor que trava de repente. Dados públicos de operadores com dezenas de milhares de discos, como os que a Backblaze divulga, mostram que uma parte relevante dos discos falha sem nenhum atributo SMART ter apontado problema antes. A conclusão prática: SMART é indispensável para pegar os casos avisados, e o backup é indispensável para os outros. Os dois juntos, nunca um sem o outro, como organiza A regra 3-2-1 de backup.
Outra limitação é a leitura “PASSED”. Quase toda ferramenta mostra um veredito geral de aprovado ou reprovado. Esse veredito só vira “reprovado” quando um atributo cruza o limite definido pelo fabricante, e esses limites são frouxos. Um disco com dezenas de setores realocados em crescimento costuma aparecer como “aprovado”. Por isso este guia ensina a olhar os atributos individuais, não o resumo.
Ler o SMART no Windows: CrystalDiskInfo
No Windows, o programa gratuito CrystalDiskInfo é o padrão. Depois de instalado (prefira o instalador do site oficial e desmarque ofertas adicionais, se houver), ele abre com um painel por disco:
- Veja o estado geral
Cada disco recebe um rótulo colorido: Bom, Cuidado ou Ruim. “Cuidado” aparece quando atributos críticos como setores realocados ou pendentes deixam de ser zero. É o sinal para continuar lendo, não para relaxar. - Confira temperatura, horas e ciclos
No topo do painel estão a temperatura atual, as horas ligado e o número de vezes que o disco foi ligado. Horas altas não são defeito, são idade; servem para contextualizar os demais números. - Mude os valores brutos para decimal
Por padrão, a coluna “Bruto” (Raw) aparece em hexadecimal, o que confunde. No menu Função › Avançado › Valores brutos, escolha decimal. A partir daí, “5” significa cinco setores, não 0x5. - Localize os atributos críticos
Procure pelos IDs 05, C5 (197), C6 (198), BB (187) e C7 (199) na lista, e leia o valor bruto de cada um. A seção de atributos explica o que fazer com cada número. - Anote
Tire uma captura de tela ou copie os valores para um arquivo de texto com a data. O que importa no SMART é a tendência, e sem registro não há tendência.
O CrystalDiskInfo também lê discos externos por USB na maioria dos casos, mas alguns conversores não repassam os dados; se o disco não aparece, o problema costuma ser a caixa, não o disco.
Ler o SMART no Linux: smartctl
No Linux, a ferramenta é o pacote smartmontools, que traz dois programas: o smartctl, para consultas manuais, e o smartd, o serviço de monitoramento. Nos exemplos, troque /dev/sda pelo disco que quer examinar; o comando lsblk lista os nomes.
# Instala o smartmontools no Debian, Ubuntu, OpenMediaVault e Raspberry Pi OS
sudo apt install smartmontools
# Lista os discos e seus nomes (sda, sdb, nvme0n1...), sem alterar nada
lsblk -d -o NAME,SIZE,MODEL,SERIAL
# Identificação do disco: modelo, número de série, firmware, se o SMART está ativo
sudo smartctl -i /dev/sda
# Veredito geral do fabricante (PASSED ou FAILED): útil, mas insuficiente sozinho
sudo smartctl -H /dev/sda
# Relatório completo: identificação, veredito, todos os atributos e histórico de testes
sudo smartctl -a /dev/sdaDois casos pedem opções extras. Discos externos por USB muitas vezes precisam que se indique o tipo de ponte com -d sat; se mesmo assim não funcionar, a caixa não repassa o SMART. E se o comando -i disser que o SMART está desativado (“SMART support is: Disabled”), ative-o uma vez com -s on:
# Disco externo em caixa USB: força o modo de tradução SATA
sudo smartctl -d sat -a /dev/sdb
# Ativa o SMART em um disco que veio com ele desligado (persiste entre reinicializações na maioria dos discos)
sudo smartctl -s on /dev/sdaNa saída do -a, a tabela de atributos tem colunas que confundem. VALUE, WORST e THRESH são valores normalizados pelo fabricante, numa escala em que maior é melhor e o alarme dispara quando VALUE cai abaixo de THRESH. A coluna que você vai usar é RAW_VALUE, o número bruto: quantidade de setores, horas, graus. Sistemas de NAS como o OpenMediaVault e o TrueNAS mostram esses mesmos dados em uma tela da interface web, lendo do smartmontools por baixo; o guia Instalar o OpenMediaVault indica onde.
Os atributos que importam
Um HD reporta dezenas de atributos, e a maioria é ruído. Cinco deles concentram quase toda a capacidade de previsão, e outros três dão contexto.
| ID | Nome | O que mede | Valor bruto esperado | O que fazer se não for zero |
|---|---|---|---|---|
| 5 | Reallocated Sectors Count | Setores defeituosos já substituídos por setores reserva | 0 | Alguns, estáveis: monitorar semanalmente. Em crescimento: copiar dados e planejar a troca |
| 187 | Reported Uncorrectable Errors | Erros que o disco não conseguiu corrigir com seu código interno | 0 | Qualquer valor acima de zero é sinal sério: copiar dados e trocar |
| 188 | Command Timeout | Comandos que o disco demorou demais para responder | 0 | Pode ser cabo ou fonte; se cresce junto com os outros, é o disco |
| 197 | Current Pending Sector Count | Setores que falharam na leitura e esperam uma gravação para serem remapeados | 0 | Há dados que o disco não consegue ler agora. Copiar tudo o que for possível imediatamente |
| 198 | Offline Uncorrectable Sector Count | Setores que falharam em um teste de superfície | 0 | Mesmo tratamento do 197: copiar dados, trocar o disco |
| 199 | UDMA CRC Error Count | Erros de transmissão entre o disco e a placa | 0 | Quase sempre cabo SATA ou porta ruim, não o disco. Trocar o cabo e ver se para de crescer |
| 194 | Temperature | Temperatura atual em graus Celsius | Abaixo de 45 °C em operação é uma meta razoável | Acima disso de forma constante: melhorar ventilação, ver limpeza e preparação do hardware |
| 9 | Power-On Hours | Horas totais ligado | Depende da idade | Não é defeito; contextualiza. Dezenas de milhares de horas pedem atenção redobrada aos demais atributos |
A regra prática que resume a tabela: 5, 187, 197 e 198 devem ser zero. Se algum deles deixar de ser zero, o disco entra em observação; se qualquer um deles crescer entre duas leituras, o disco está morrendo e os dados devem sair dele antes de qualquer outra providência. O 199 é a exceção útil: quase sempre denuncia um cabo mal encaixado, o que é bom saber antes de condenar um disco são, como discute Solução de problemas comuns.
Se os atributos 197 ou 198 estão acima de zero, se o 5 cresceu desde a última leitura, se o disco faz cliques repetidos ou some e reaparece, não rode testes longos. Um teste longo lê a superfície inteira e faz um disco à beira da falha trabalhar por horas, exatamente o que pode acabar com ele. A ordem certa é: copiar os dados importantes para outro lugar (começando pelo que não tem backup), confirmar que a cópia abre, e só então testar ou trocar. Se a cópia travar em alguns arquivos, pule-os e siga: pegar 98 por cento agora vale mais que 100 por cento nunca.
SSDs NVMe: os indicadores são outros
SSDs SATA reportam atributos numerados como os HDs, com nomes que variam por fabricante (procure por “Wear Leveling”, “Percent Lifetime Used” ou “Total LBAs Written”). SSDs NVMe usam um conjunto padronizado e mais legível, que o smartctl -a /dev/nvme0 mostra como uma lista de campos. Os que importam:
- Percentage Used: quanto da vida útil estimada pelo fabricante já foi consumida, em porcentagem. Pode passar de 100 sem o disco parar, mas acima disso ele está fora da garantia de durabilidade. É o equivalente do TBW gasto, do guia HD ou SSD.
- Available Spare: porcentagem de células reserva ainda disponíveis. Quando cai perto do limiar (Available Spare Threshold), o SSD está esgotando a capacidade de remapear.
- Media and Data Integrity Errors: erros que o controlador não conseguiu corrigir. Deve ser zero; qualquer valor é motivo para copiar os dados.
- Critical Warning: um código que deve ser zero. Diferente de zero indica temperatura crítica, reserva esgotada ou memória em modo somente leitura.
- Unsafe Shutdowns: desligamentos sem aviso. Crescendo rápido, indica problema de energia ou de suspensão mal configurada, que desgasta o SSD.
- Temperature: SSDs NVMe toleram mais calor que HDs, mas reduzem a velocidade quando esquentam demais; um dissipador simples resolve na maioria dos casos.
Testes curto e longo
Além dos contadores, o disco sabe testar a si mesmo. O teste curto (short) leva por volta de um ou dois minutos e verifica a eletrônica, o motor e uma amostra pequena da superfície. O teste longo (long ou extended) lê a superfície inteira e leva de uma a muitas horas, conforme o tamanho do disco. Ambos rodam em segundo plano, com o disco em uso, embora o longo fique mais rápido se o disco estiver ocioso.
# Inicia um teste curto (o comando retorna na hora; o teste continua dentro do disco)
sudo smartctl -t short /dev/sda
# Inicia um teste longo: a saída informa a duração estimada
sudo smartctl -t long /dev/sda
# Consulta o resultado: a tabela mostra os últimos testes, o status e o LBA do primeiro erro, se houver
sudo smartctl -l selftest /dev/sda
# Em SSDs NVMe, o relatório completo usa o nome do controlador
sudo smartctl -a /dev/nvme0O resultado que você quer ver é “Completed without error”. “Completed: read failure” com um número de LBA significa que o disco encontrou um setor ilegível naquele endereço: trate como 197 acima de zero. “Interrupted (host reset)” significa que o computador reiniciou ou suspendeu durante o teste; rode de novo em um momento em que a máquina fique ligada. Uma rotina sensata para um servidor doméstico é teste curto semanal e teste longo mensal, o que o smartd faz sozinho.
Monitoramento automático com smartd
Ler o SMART à mão uma vez é diagnóstico; o que protege é a leitura contínua, com aviso quando algo muda. É o trabalho do smartd, instalado junto com o smartmontools. Ele lê os atributos periodicamente, agenda os testes e envia um alerta quando um atributo crítico muda, um teste falha ou a temperatura passa do limite.
A configuração fica em /etc/smartd.conf. O arquivo vem com muitos exemplos comentados; o jeito mais simples é deixar uma única linha ativa com DEVICESCAN, que aplica as mesmas regras a todos os discos encontrados:
# Monitora todos os discos: -a = todos os atributos e testes;
# -n standby,q = não acorda discos em repouso; -s = agenda testes
# (S = curto, todo dia às 02h; L = longo, aos sábados às 03h);
# -W 4,40,45 = avisa se a temperatura subir 4 °C de uma vez, passar de 40 °C ou de 45 °C;
# -m root = envia o alerta por e-mail para o usuário root
DEVICESCAN -a -n standby,q -s (S/../.././02|L/../../6/03) -W 4,40,45 -m root# Ativa o serviço e o inicia agora (no Debian e Ubuntu o nome é smartmontools; smartd é um apelido)
sudo systemctl enable --now smartmontools
# Confere se está rodando e lê as últimas mensagens
sudo systemctl status smartmontools
sudo journalctl -u smartmontools -n 30O alerta por e-mail só chega se o servidor souber enviar e-mail, o que exige configurar um programa de envio com uma conta sua; sem isso, o smartd registra o aviso apenas no log do sistema, que você verá na rotina de Rotina de manutenção: atualizações, logs, temperatura e limpeza. OpenMediaVault e TrueNAS resolvem isso com uma tela de notificações onde você coloca a conta de e-mail uma vez e todos os avisos, inclusive do SMART, passam a usar. Para um teste, a opção -M test na linha do DEVICESCAN faz o smartd enviar um e-mail de verificação ao iniciar.
Quando trocar, e em que ordem agir
Não existe um número mágico de setores a partir do qual o disco deve ir para o lixo; existe tendência. A régua a seguir funciona para a maioria dos casos domésticos:
- Trocar já: 197 ou 198 acima de zero, 187 acima de zero, teste longo com falha de leitura, cliques ou desaparecimentos do disco, ou SSD com Critical Warning ou erros de integridade.
- Trocar em breve, com backup em dia: 5 com alguns setores que cresceram entre duas leituras, mesmo que o veredito continue “PASSED”; SSD com Percentage Used perto de 100 ou Available Spare caindo.
- Observar: 5 com poucos setores que não mudam há meses; temperatura um pouco alta; horas elevadas sem outros sinais. Reduza o intervalo de leitura e mantenha o backup rigoroso.
- Provavelmente não é o disco: só o 199 cresce. Troque o cabo SATA, use outra porta e verifique a fonte.
Ao trocar, identifique o disco pelo número de série (o smartctl -i mostra; a etiqueta física confirma), nunca pela posição que você acha que ele ocupa. Em um RAID, a troca aciona uma reconstrução, que é o momento mais perigoso para os outros discos, como explica RAID explicado sem mistério; confira o SMART dos discos restantes antes de iniciá-la. E, depois de instalar o disco novo, rode nele um teste longo antes de confiar dados, porque discos chegam com defeito de fábrica com alguma frequência. Por fim, um disco condenado que vai sair de casa deve ser apagado de forma segura ou destruído fisicamente: os dados continuam lá mesmo que o disco “não funcione”.
Erros comuns
Glossário deste guia
- SMART
- Sistema de automonitoramento dos discos, que mantém contadores de uso, temperatura e erros e permite testes internos.
- Atributo
- Cada contador individual do SMART, identificado por um número (ID) e um nome. O valor bruto (RAW) é o que se lê na prática.
- Setor realocado
- Setor com defeito que o disco substituiu por um setor reserva. Contado no atributo 5.
- Setor pendente
- Setor que falhou na leitura e aguarda uma gravação para ser realocado. Contado no atributo 197; indica dados em risco agora.
- Teste curto e longo
- Autotestes do disco: o curto verifica a eletrônica e uma amostra em minutos; o longo lê a superfície inteira em horas.
- smartctl e smartd
- Os dois programas do smartmontools: consulta manual e serviço de monitoramento contínuo com alertas.
- Percentage Used
- Indicador dos SSDs NVMe que mostra quanto da vida útil estimada já foi consumida.
- LBA
- Endereço lógico de bloco: a numeração dos setores do disco. Aparece nos resultados de teste para indicar onde a leitura falhou.
Checklist: meus discos estão vigiados?
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Fontes e leituras complementares
- Smartmontools, site e documentação oficial: referência do smartctl e do smartd, incluindo a sintaxe do smartd.conf.
- Backblaze, Hard Drive Test Data: dados públicos de falha de discos e dos atributos SMART que mais se correlacionam com ela.
- Arch Linux Wiki, S.M.A.R.T.: guia prático de uso do smartmontools no Linux.
- CrystalDiskInfo, página oficial: ferramenta gratuita de leitura do SMART no Windows.
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